16 de novembro de 2009

uma história

Eu sou como uma história que existe, acontece todos os dias, mas nunca foi contada. Eu sou uma história que não é a minha, nem a sua. É apenas uma história que acontece e eu não faço parte porque sou a própria história. Eu nasci folha branca e aos poucos ganhei rascunhos que não vão embora tão cedo. Talvez por isso tenha tido vontade de contar histórias -- não a minha claro, mas a de outras pessoas, contar outras pessoas, contar pessoas e as outras.
E minha história não é igual a de ninguém. Às vezes, a caneta falha na minha pele, eu empurro e ela me machuca forte, de um jeito que marca para sempre. Às vezes, ela caminha suave pelo meu corpo, me escreve toda e me arrepia. Aí eu sou feliz. Aí eu estou feliz. Porque a gente nunca é, a gente sempre está.

12 de novembro de 2009

Paulistano não é bom turista na cidade de SP

Quando a gente viaja para qualquer lugar, corre logo atrás dos pontos turísticos da cidade. Quando estamos em nossa cidade natal, nem sempre isso acontece. Aliás, quase nunca acontece. E numa capital como São Paulo, onde as opções crescem em progressão geométrica, fica difícil dar conta de ir aos lugares da moda e também aos pontos turísticos. Mas, aqueles conhecidos em todo o canto merecem a visita.

Toda essa introdução é para dizer que eu nunca subi no topo do Edifício Altino Arantes, o famoso prédio do Banespa aqui na região central. Já almocei um milhão de vezes no Salve Jorge que fica em frente, mas nunca subi lá e tirei uma foto da cidade. Pretendo corrigir isso em breve até porque o prédio do Banespa não será mais prédio do Banespa muito em breve, já que o banco que foi comprado pelo Santander há um tempo e está de mudança para as imediações da Marginal Pinheiros. Apesar de estar à venda, o prédio ainda não tem comprador em vista e pode ficar um pouco fechado.
Para além desse fragmento de história da minha vida, conversando com amigos e diversas outras pessoas, constatei que os paulistanos não são bons turistas em São Paulo. Neste fim de semana, a Veja SP deu como matéria de capa um extenso roteiro de programação cultural que passa por locais referência na cidade. Um exemplo é o Cine Marabá que reabriu recentemente aqui no Centro com excelente infra-estrutura, mas que não tem muito público. Uma outra boa dica que fica pertinho é o Ponto Chic que serve baurus deliciosos e o Bar Estadão, que fica ali perto da Biblioteca Mário de Andrade e serve lanches de pernil igualmente apetitosos.
Para além da chamada "baixa gastronomia" a região do Jardim Paulista tem restaurantes muito gostosinhos que só pelo ambiente já valem a visita. Durante a Restaurant Week deste ano, estive no Capim Santo. A comida é ótima e o ambiente muito aconchegante.
Outro ponto turístico imperdível é o Parque do Ibirapuera. Gosto muito dos shows que acontecem no Auditório Ibirapuera, pois contemplam a música brasileira emergente e alguns novos artistas da América Latina, por exemplo. Ano passado, Julieta Venegas tocou lá.
A efervescência cultural da cidade faz crer que a cidade de São Paulo pode ser conhecida por meio do viés cultural, pois muito de seus respectivos pontos turísticos perpassam o tema.
Da minha parte, vou cumprir a promessa de ver a cidade de cima e depois posto uma foto aqui.

2 de novembro de 2009

This is it - MJ


Em tempos de celebridades instantâneas surgindo e sumindo a cada momento, como a própria metáfora das estrelas cadentes, This is it, filme em homenagem ao cantor Michael Jackson que compila trechos de ensaios e pré-produção da turnê. Os shows não aconteceram, mas o filme lançado agora promove o reencontro entre o público e um artista com verdadeira "star quality". Michael tinha "star quality" de sobra.
O filme com apelo documentarístico é um registro precioso da preparação do cantor para sua última turnê. Os momentos de grande emoção e intensa movimentação se revezam e dão um ritmo contagiante ao longa que mal dá para perceber que estamos ali sentados há duas horas.
Nesse período, a platéia acompanha Michael Jackson cuidados dos preparativos para o show que trazia sua marca registrada, uma espécie de DNA artístico: o pioneirismo. Além de seu talento como showman, Michael era um visionário, investia em computação gráfica desde quando isso não era coisa de cinema, como no clipe Black and White no qual ele lançou o software capaz de amalgamar as faces de todas aquelas pessoas brancas, negras, japonesas, etc.
Ser de alguma forma testemunha daquele processo é quase uma honra concedida a apenas alguns espectadores, já que o filme fica em cartaz por apenas duas semanas no cinema. Deve virar DVD depois. Mas, recomendo para quem puder assistir ao filme na tela IMAX do Espaço Unibanco Pompéia que o faça porque a experiência é muito próxima a de estar, de fato, no show.
Ao final, a sensação é de um grande vazio, apenas por imaginar que tudo aquilo foi uma preparação para uma turnê que não aconteceu por conta da morte precoce do astro, em junho deste ano. A grande metáfora é a da estrela que de repente deixa de bilhar, deixando milhares de fãs na escuridão.

1 de novembro de 2009

um vestido e uma sentença

Causou todo tipo de emoção controversa o caso da universitária que precisou ser escoltada por policiais para conseguir sair da faculdade aqui em São Paulo. Acho que a emoção mais comum foi a vergonha alheia. Que tipo de grupo sente-se no direito de humilhar alguém daquele jeito (quem assistiu ao vídeo no YouTube sabe do que estou falando)? Estamos vivendo a era da hipocrisia e do preconceito. É por causa de gente assim, supostamente universitários que deveriam servir de exemplo que vivemos uma era de violência e preconceito.

Ontem, a Folha de SP publicou a foto da garota com o tal vestido e, sinceramente, não há nada demais ali. Muitos de nós já vimos garotas usando muito menos trajes, especialmente na televisão e não apenas depois das 10 da noite. E mesmo que ela estivesse com um vestido realmente curto: E DAÍ? Cogitou-se que ela seria garota de programa. E daí de novo?
Este post não é um libelo feminista. Violência de toda a espécie me causa imensa revolta seja ela nos estádios de futebol, nas ruas da cidade, violência passiva como é o abandono dos jovens viciados que perambulam pelo Centro sem rumo, violência contra mulheres, gays, enfim, violência deveria ser, por si só, objeto de repulsa para todos nós.
Recentemente, ouvi um professor proferir uma frase que me fez entender um pouco mais a crise de paradigmas que estamos vivendo neste momento: Quando a esfera pública fica desinteressante, os assuntos da esfera privada ganham relevância. Com a política brasileira perdendo a cada dia mais credibilidade e as pessoas voltando-se para seus respectivos universos e isolando-se do ambiente coletivo, é natural que os aspectos da vida privada fiquem em evidência. E o culto a personalidade só acentua ainda mais essa tendência.
Sei apenas que a história dessa menina me deu certo medo de para onde nosso mundo está caminhando. A única certeza que eu tenho é que toda vez que acreditamos estar avançando, algum aspecto vergonhoso nos rememora que ainda há muito o que fazer antes que o avanço de fato aconteça. As mudanças efetivas acontecem, em geral, de dentro para fora. Não adianta impor um comportamento e acreditar no bom senso coletivo. Geralmente, nos decepcionamos.

17 de outubro de 2009

Do amor e da literatura

Ano passado, o escritor português José Saramago esteve em São Paulo para o lançamento de seu livro "A viagem do elefante". O concorrido encontro com o autor no SESC Pinheiros, aqui em São Paulo, foi das experiências mais marcantes que eu já vivenciei e nem precisou de requintes ou efeitos pirotécnicos. Nada disso.

Até a véspera, eu sequer sabia se conseguiria de fato estar lá e ouvir, por cerca de 1 hora, a um dos principais escritores contemporâneos falar sobre o processo criativo de sua obra e sobre um outro assunto que todo mundo especulava, mas ninguém sabia ao certo o que de fato ocorreu: a quase morte do autor. Uma doença misteriosa quase teria levado sua vida há cerca de uns 2 anos e meio e graças ao esforço de uma personagem muito importante, isso não ocorreu. Saramago atribui sua vitória integralmente à Pilar.

Quem já leu qualquer obra de Saramago sabe que depois da capa e da folha de rosto, lá está a gratidão à Pilar. E hoje, caminhando perdida pela livraria Saraiva do Shopping Anália Franco, que tocava uma música completamente inapropriada para um ambiente como aquele, deparei com o mais recente livro do autor português. Com as belas capas que a Companhia das Letras produz para as obras de Saramago, o livro chama a atenção pela aparência hermética. Inevitável é folheá-lo e lá estava a dedicatória mais bela já lida por esta que escreve neste humilde blog: À Pilar, como se dissesse água.

Na ocasião do lançamento no SESC Pinheiros, quem abriu o evento foi a própria Pilar, uma espanhola enérgica e simpática. Ela é uma figura e logo se percebe o porque Saramago está curado. Alguém com tanta energia e disposição não o perderia de vista por sequer um segundo. Divertida, falante e com personalidade oposta a Samarago, Pilar soube a hora de parar e deu a palavra a ele, que durante uma hora falou sentado em uma cadeira, sozinho, sobre suas idéias, suas opiniões e pouco sobre sua vitória. Discreto, não deu detalhes do que lhe ocorreu no campo da saúde, limitou-se apenas a dizer que não estaria ali não fosse a dedicação incondicional da amada. E quem achava que a verdadeira atração seria Saramago, enganou-se. Ao fim, estávamos todos agradecendo à Pilar como se disséssemos água.

14 de outubro de 2009

filmografia inspirada

Dois títulos de filmes me chamaram a atenção pela poesia incutida: "Se nada mais der certo" e "Viajo porque preciso, volto porque te amo". O primeiro já alcançou as telas e o segundo deve estrear em breve. Ambos são brasileiros. A poesia do cotidiano é matéria-prima inesgotável. Feliz do cineasta e realizador capaz de captar isso e criar uma bela crônica com imagem e som.

12 de outubro de 2009

Por que Obama venceu o Nobel da Paz?

Quando recebi a notícia de que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, venceu o prestigioso Nobel da Paz, logo imaginei que os críticos diriam que o prêmio não foi merecido, afinal, Obama não fez nada de concreto que promovesse a paz, por assim dizer.

Acho que o prêmio, nesse caso, funcionou como um indicador. Muitas premiações fazem isso. Em vez de premiar iniciativas concretas, premiam pessoas capazes de realizar muitas coisas e o prêmio, dessa forma, é um sinalizador e funciona também como estímulo.

Acho que o prêmio foi merecido, mesmo sem analisar globalmente todas as pessoas que mereciam ser premiadas e que realizam, ao redor do mundo, ações que melhoram a vida de outras pessoas e consequentemente preparam o terreno para que a paz se instale.

O conceito de paz é muito maior do que a música de John Lennon. Para promover a paz real, como diz a canção, é preciso que as diferenças sejam capaz de conviver e mais do que isso, que as pessoas sejam capazes de viver em ambientes em que a diferença se instale. É preciso que as pessoas sintam mais segurança de suas próprias crenças e não enxerguem ameaças potenciais em tudo o que é diferente do que alguém acredita. Multiplicando todas as idiossincrasias por 6 bilhões o cenário é de absoluto caos. Mas, às vezes, os interesses coincidem. E quando acontece, alguém vence uma eleição e tem a chance de mudar o mundo, por exemplo.

Por ser negro e ter vencido a eleição para o principal posto político do mundo, temos a impressão de que Obama é capaz de tudo, inclusive de promover a paz mundial. Perto da anterior, a atual gestão de Obama tem promovido debates importantes que fogem do tema universal que parecia habitar a mente de Bush durante as 24 horas do dia: petróleo. Obama discute a questão da reforma da saúde nos EUA, discute a questão da economia mundial e os efeitos locais. Sob Obama, os Estados Unidos passou a fazer parte do mundo novamente e isso é um feito e tanto.

Acho que o prêmio quis dizer: preste atenção nesse cara. Ele ainda vai fazer coisas boas.
Diante do cenário que atravessamos, acho que a oportunidade está aí. Vamos deixar que ele mostre o que pode realmente fazer e deixar que os egos feridos se curem. Às vezes, em nome de algo maior é preciso abdicar de algumas vontades particulares e num mundo altamente individualista esta tarefa não é nada fácil.

Enfim, nós precisamos de esperança, seja por meio da religião, seja por meio da política. E esta última anda tão desacreditada.